A TEORIA E A PRÁTICA: Utopia ou dicotomia ou hipocrisia?

Uma das teorias mais estudadas é a do comunismo, sendo seus criadores Karl Marx e Friedrich Engels, que a definiu como “a doutrina das condições de libertação do proletariado”. Sua leitura nos leva a um sonho de se ter uma comunidade perfeitamente unida para o bem comum de todas as famílias que a ela pertencem. Na teoria, para a maioria dos críticos, ela é perfeita nas suas finalidades.
Na prática, entretanto, temos vários e vários exemplos de serem verdadeiros infernos para o povo. Basta pesquisar e ler sobre todo o sofrimento da maioria da população dos países comunistas, desde o século 19, mais divulgado a partir de meados do século 20 com a evolução dos meios de comunicação.
O comunismo normalmente é um sistema imposto por um grupo de pessoas de prestígio econômico e social, onde eles mandam e desmandam, usualmente pela cooptação e o aparelhamento das forças armadas e da estrutura governamental instalada, incluindo a produção, distribuição e comercialização de todos os itens de consumo. Os divergentes são expurgados, presos ou mortos, o que dada as condições das prisões e dos tratamentos dispensados é a mesma coisa. Os poucos que conseguem fugir são perseguidos onde quer que estejam, dependendo do cargo que ocupavam nestas sociedades opressoras.
Uma exceção, importante, são os KIBUTZIM de Israel, que combinam o socialismo e o sionismo no sionismo trabalhista. Os kibutzim são uma experiência única israelita e parte de um dos maiores movimentos comunais seculares na história. Estas comunidades coletivas voluntárias desempenharam papel essencial na criação do Estado judeu.
Neste século 21, estamos observando que os conceitos da democracia e dos seus pilares estão sendo invertidos pelos que se dizem “democratas”, mas que, na realidade, não passam de socialistas com viés esquerdistas. Esta inversão dos conceitos está sendo sustentada e apoiada por muitos dos maiores grupos econômicos e das comunicações.
A doutrina afirma que a democracia repousa sobre três princípios fundamentais: *o princípio da maioria*, *o princípio da igualdade* e *o princípio da liberdade. *Isto sobre o manto sagrado da sua essência conceitual: *o da soberania popular*, segundo o qual o povo é a única fonte do poder.
Estou introduzindo estes singelos parágrafos conceituais para me transportar para a Associação Internacional de Lions Clube e a sua ramificação no Brasil, que são entidades sem fins lucrativos. A Associação possui estrutura e regulamentações de funcionamentos próprios, mas com a orientação de que devem ser observadas e seguidas as Leis próprias de cada país.
No Brasil, a Lei maior é o Código Civil Brasileiro, Lei nº 10.406, de 10.01.2002, que as define pela união de pessoas que se organizam para fins não econômicos, cuja finalidade é geralmente cultural, social, religiosa, recreativa, científica ou moral, entre outras. A entidade é constituída através do estatuto da associação, o qual deverá ser registrado no Registro Civil de Pessoas Jurídicas (“RCPJ”), com foro no mesmo local de sua sede. O ato desse registro confere personalidade jurídica à associação. O estatuto da associação deve conter: (i) a denominação, os fins e a sede da associação; (ii) os requisitos para a admissão, demissão e exclusão dos associados; (iii) os direitos e deveres dos associados; (iv) as fontes de recursos para sua manutenção; (v) o modo de constituição e funcionamento dos órgãos deliberativos e administrativos; e (vi) as condições para a alteração das disposições estatutárias e para a dissolução.
Estas pinceladas conceituais são necessárias para podermos analisar recentes acontecimentos dentro de Lions, que é comandado por enorme diretoria internacional e regionais, sendo estas espalhadas pelas diversas áreas geográficas do mundo. Todos os órgãos autônomos dentro da estrutura devem ser constituídos conforme às Leis vigentes em cada país. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a forma de eleição dos dirigentes dos órgãos autônomos é pelos associados dos Clubes, em sua totalidade ou por representações de delegados de cada Clube nas Convenções.
Lions Internacional foi fundado em outubro de 1917, portanto, completando 104 anos neste mês corrente de 2021. Por incrível que pareça, todos os seus presidentes e demais diretores foram “eleitos” por votação dos delegados em convenções internacionais, sempre sendo vencedores os candidatos apoiados pela Diretoria Internacional e pela maioria dos diretores regionais. E o interessante é que o candidato para a vice-presidência é indicado, pelos dirigentes internacionais, tão logo termina a Convenção Internacional.
Também vale registrar que o Estatuto de Lions Internacional especifica que qualquer Distrito Lions (órgão estrutural que agrega regionalmente vários Clubes) pode endossar um candidato a concorrer à vice-presidência ou às diretorias Internacionais, desde que o candidato atenda aos requisitos para o cargo pleiteado. Ou seja, o escrito é para livre concorrência de todos os que forem endossados pelos delegados na Convenção Distrital. Na prática, entretanto, um é escolhido e apoiado pelas diretorias internacionais e este escolhido sempre saí vencedor das eleições, onde a maioria dos candidatos, conhecendo a prévia escolha, renunciam antes do início da Convenção Internacional, de forma que usualmente sempre concorrem os indicados. Para os candidatos únicos, na cédula consta só uma opção obrigatória para se assinalar: “sim”. Não existe a opção de “não” e de “em branco”. Se não assinalar na cédula digital o campo de “sim”, um novo item a votar não é apresentado para o delegado votante (foi assim na última Convenção).
Quando algum candidato, não previamente indicado mas apto por atender as exigências, resolvia concorrer, como na última Convenção, onde a candidata do Distrito Múltiplo do Sul do Brasil, que postulava a sua candidatura a mais de dez anos, mas sempre a retirava por não ter sido a escolhida previamente, o resultado do pleito não apresentava qualquer novidade, já que o eleito sempre era o indicado.
Assim, em um universo de possíveis 48 mil delegados, já que a última Convenção foi realizada no formato virtual e on line, só foram votar 8 mil e, por coincidência de 103 anos, foi eleito o que havia sido previamente indicado pelos dirigentes internacionais e pela maioria dos diretores regionais, conforme amplamente e previamente divulgado nas mídias sociais por vários “líderes” do Brasil e demais países da América Latina.
Destaca-se que o Brasil possui quatro Distritos Múltiplos, agregando Lions Clubes dos estados. Durante os últimos seis ou sete anos sempre se tentou eleger e indicar o candidato único do Brasil, para a vice-presidência de Lions Internacional, pela votação dos delegados dos clubes de todos os estados, nas suas Convenções Distritais, conforme preconiza todos os Estatutos e Regulamentos. O Brasil possui 31 Distritos, porém nunca se conseguiu este intento, já que os que se intitulam “líderes regionais” se auto proclamavam com o direito de escolherem quem eles desejassem e não quem os Leões pudessem escolher. O Brasil está situado dentro da Área III, que abrange a América Latina e o México.
Não vou explicitar as baixarias articuladas contra a candidata do Distrito Múltiplo Brasil, durante os meses que antecederam as campanhas das duas candidaturas ao pleito internacional, porque foi triste e não condizente com os valores éticos e morais que fundamentam os propósitos dos Leões. Mas não ficou nada distante das baixarias que imperam na política brasileira, que é nojenta e amplamente divulgada nas mídias de comunicação.
Esta eleição ocasionou certa desunião dos Lions Clubes do Brasil, já que se houvesse uma eleição do candidato do Brasil a vice presidência de Lions Internacional, pelos delegados de todos os clubes do Brasil, possivelmente a candidata do Distrito Múltiplo do Sul do Brasil seria a vencedora, por seus princípios e valores; por suas presenças em vários e vários eventos de todos os Distritos; por seu carisma e relacionamentos com os Leões e Leos das bases dos clubes, entre outros. Como isto não foi possível de acontecer, restou mal estar e situação não desejável.
Agora, por iniciativa da CONFRARIA APLIONS (associação ou conjunto de pessoas do mesmo ofício, da mesma categoria ou que levam um mesmo modo de vida), se propõe a criação do FOLBRAS – Fórum Lions do Brasil (já existe o FOLAC que atende a América Latina e se reúne uma vez por ano), objetivando restabelecer a “união nacional”, face ao ocorrido na última eleição da Associação Internacional de Lions Clubes. Este FOLBRAS alternativamente poderia ser uma Convenção Nacional, reunindo todos os Distritos do Brasil.
Para tanto, foi convidado o PID (ex-diretor internacional) Zander Campos da Silva para proferir palestra sobre a criação deste Fórum. O PID Zander é um dos mais fortes apoiadores do Companheiro Leão eleito para a 3ª. Vice-Presidência de Lions Internacional na última Convenção. Os encontros virtuais, on-line, se deram, basicamente, durante todo o mês de agosto passado. Destes encontros participaram representantes de nove Distritos, conforme relatório recentemente distribuído.
Segundo o roteiro, o PID Zander deveria se orientar, em sua explanação, para responder aos seguintes questionamentos: Devemos criar o Fórum Leonístico Brasileiro (FOLBRAS)? É necessário? É conveniente? Por quê? Fortalecerá o Leonismo no Brasil? Será útil para garantir a união nacional em tomada de decisões, como a escolha de candidatos a cargos internacionais? Auxiliará o desenvolvimento de lideranças e a integração dos Lions Clubes do Brasil?
Todos estes questionamentos foram respondidos de forma totalmente favorável pelo palestrante, conforme descreve o relatório, tendo sido ele, inclusive, o inspirador da criação deste Fórum através da Resolução nº 857 do antigo Conselho Nacional de Governadores (desmembrado nos atuais quatro Distritos Múltiplos do Brasil).
Desta Resolução, por ele apoiada e defendida em sua palestra, destacamos os seguintes artigos que são propostos para serem norteadores do FOLBRAS, os quais nos evidenciam, em síntese, os propósitos a serem alcançados:
Artigo 111 – O objetivo do FOLBRAS é estudar, discutir, avaliar e sugerir medidas para o fortalecimento, aprimoramento e crescimento do leonismo brasileiro, buscando uma representação internacional digna do Brasil e de seu quadro de associados em âmbito internacional.
Artigo 112 – Devem ser montados comitês e painéis, debatendo o aumento de associados, a administração de clubes, imagem e campanhas na comunidade, arrecadação de fundos e outros assuntos de interesse geral.
Artigo 113 – No FOLBRAS são apresentados os candidatos a cargos internacionais, tendo cada um deles 7 (sete) minutos para sua apresentação, dos quais dois minutos para seu apresentador e cinco para o candidato.
Artigo 114 – Cada Distrito que tiver interesse em apresentar candidato deve comunicar a intenção de concorrer ao Presidente do Distrito Múltiplo anfitrião com 30 (trinta) dias de antecedência, contados da data do início do Fórum, encaminhando cópia da ata do Lions Clube, da ata da Convenção do Distrito e currículo do candidato.
Artigo 115 – O FOLBRAS ouvirá e selecionará os candidatos que terão o apoio do Brasil para disputar cargos internacionais, podendo estes se apresentar ou não no Fórum Latino Americano e do Caribe (FOLAC), observadas as oportunidades conferidas ao Brasil.
*PARÁGRAFO ÚNICO:* *O Colégio Eleitoral para escolha dos candidatos será constituído do Presidente Internacional do ano e de gestões anteriores, dos Diretores Internacionais do Brasil e do ano e de gestões anteriores, dos Presidentes de Distritos Múltiplos do Brasil do ano e de gestões anteriores e dos Governadores em exercício do ano e de gestões anteriores.*
Artigo 116 – Podem participar do FOLBRAS os associados de Lions Clubes, Domadoras, Leos e Castores, bem como Dirigentes Governadores de gestões atuais e anteriores, Diretores Internacionais de gestões anteriores, Presidentes Internacionais de gestões anteriores e Diretores Internacionais do Brasil e convidados.
Segundo ainda o relatório distribuído, o PID Zander também respondeu perguntas dos presentes em sua palestra.
Em minha opinião, particular e exclusiva, qualquer Fórum de debates de causas ou propósitos comuns ou sociais são importantes, mas desde que sejam efetivamente dentro dos conceitos e pilares da democracia e não de qualquer intenção de eventuais autoritarismos.
Mas observando o que ocorreu em 103 anos de existência da Associação Internacional de Lions Clubes, especificamente para a eleição dos seus dirigentes, e analisando sinteticamente os propósitos deste FOLBRÀS, eu chego à conclusão que continuará haver sérias divergências entre a teoria escrita e a prática a ser efetivada.
Neste caso específico do FOLBRÁS, segundo os artigos expostos e defendidos pelo palestrante, mais claro fica a prática no que tange a escolha e a eleição dos candidatos do Brasil aos cargos internacionais, ou seja, continuaria sendo escolhido e eleito pelos autointitulados “líderes”, descritos no parágrafo único do artigo 115 da mencionada Resolução do ex Conselho Nacional de Governadores. Salienta-se, entretanto, que tal prática não é aderente ao que preconiza os Estatutos, o Código Civil Brasileiro e aos verdadeiros pilares da democracia.
Por que me refiro a autointitulados “líderes”? Porque o líder não se proclama, mas sim é proclamado pela maioria dos que lhe seguem. Sem seguidores, não há líderes! Não é o cargo que faz o líder, mas sim os seus valores positivos e consequentes exemplos em seus atos.
Mais, ainda, entendo que o FOLBRÀS, dentro destes conceitos ultrapassados para a escolhas dos dirigentes internacionais (Ou será maus hábitos?), em nada mudará o estado antidemocrático das escolhas em vigência a mais de um século. Para firmar este meu posicionamento, pinço e transcrevo o seguinte início de resposta a última pergunta apresentada ao palestrante, constante do relatório: *“Começo com um exemplo: “Sou o capitão e você o soldado raso e digo que vá buscar esse envelope na sala do major”, subentendo que as decisões devem ser aceitas e cumpridas.”*
A pergunta se referia aos péssimos acontecimentos ocorridos na América Latina durante a campanha da PID Rosane Teresinha, do Distrito Múltiplo LD, concorrendo contra o candidato indicado e apoiado pelos dirigentes de Lions Internacional. Ressalvo que os dirigentes fizeram desmentidos quanto aos apoios ao indicado e escolhido, mas vários foram registrados nas mídias sociais.
Finalizo dizendo que entendo ser muito importante qualquer proposta de livres e amplos debates sobre quaisquer causas de interesses comuns, mas desde que sejam verdadeiramente democráticas, ou seja, que a democracia não seja apenas um pano de fundo para se impor os que se auto intitulam “líderes”. A vontade tem que ser sempre da maioria dos que devem escolher, segundo as Leis e Estatutos das entidades sem fins lucrativos. Temos ambiente para este ideal?
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Esta é uma análise particular de quem subscreve a matéria e não representa, em hipótese alguma, a opinião de qualquer outro associado do meu Clube.
Barra Velha – SC – 12 de outubro de 2021
CL Jorge Roberto de Almeida

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